domingo, 9 de dezembro de 2007

Menino-peixe.

Flutuando sobre o mar,desfaço-me em gotas de sal.
Enquanto penso numa maneira de não me afogar,engulo mais água.
E isso me deprime.E me afunda.E me cega.
Quando abro os olhos,salgados,ardidos - a dor mostra-se como anestesia -,eu grito.
Ninguém ouve.Nem mesmo vê.E eu, ali, à deriva, numa imensidão constante, que não se acaba, só aumenta aos nossos olhos,mas não se reproduz,não, isso é ilusão.Eu me iludo. Nada é tão gradioso quanto o que lhe parece.
Mas mesmo assim eu fico a pensar, e esqueço um pouco da água que entra à jorra na minha garganta.
Acho que sou um pouco daqui, do fundo do mar.Sinto que algumas guélrras abrem-se no meu pescoço, e aquela salmora não desliza pela garganta,indo para o pulmão e parando,uma parte somente, no estômago, fazendo-o revirar .
Sinto que meus pés estão movendo-se com rapidez...e minhas mãos!Meus dedos juntam-se numa membrana estranha, esquisita.Não conseguirei mais equilibrar a moeda neles, que passava deslizando por entre eles,como mágica.Agora eu sou daqui, isso eu tenho certeza.Não me assusto mais com a escuridão do fundo do mar.Olho de relance para o abismo,solto uma baforada,que na atmosfera aqüífera nascem bolhas somente.Então,olho para trás, para saber se ninguém observa-me,talvez alguma anêmona esconda um peixe-palhaço, para tirar sarro da minha ignorância.Pulo, num salto ornamentalmente horroroso para um morador do mar.Sinto vergonha.Mas logo passa. Após chegar naquela imensidão,escura,sinto-me em casa,finalmente.


terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O periquito


"Ao pisar no galho, quase caí. Já era noite. Ouvia-se somente o chirrear das corujas. Não havia nenhum ninho para mim. Quis tanto um lugar somente meu, e quando pensei ter encontrado, era de todos, que vinham e tomavam-no como sendo deles. Eu nunca tive algo somente meu. Nem mesmo a minha mãe era minha. Ela era na verdade fêmea do meu pai. E eu? Sei lá.

Eu só queria poder fazer o meu canto. O meu próprio ninho, com meus próprios gravetos, alguns pedacinhos de algodões que achasse pela mata, ou até mesmo algum pacote de pipoca jogado pela rua.

Mas como poderia fazer isso? Enfermo, sem poder sair da árvore, dependia da ajuda das corujas, mas a comida seria o resto dos ratos que elas comiam. Suas tripas eram como minhocas, talvez mais apetitosas. Não podendo voar, contentava-me com o que ganhava. Como poderia viver sozinho, sendo um aleijado?Não, não era. Eu sei disse, só estou reclamando, pois tenho que desabafar. Eu sou somente um periquito, que chamam de australiano, não sei por quê.

Eu vivi, depois de ter nascido, numa gaiola toda enfeitada. Achavam-me passarinha. Ninguém entende a natureza mesmo. Mas fugi, tendo que passar pelas frestas debaixo da gaiola, que tinha um piso de papelão, que molhei muito, sem que ninguém percebesse, claro, pois sempre que colocavam comida ou limpavam a gaiola, eu tentava fugir, tirando a atenção de quem fosse limpar o papelão, concentrando-se somente em mim, e na comida. Às vezes ficava semanas sujo. Foi numa dessas semanas que consegui a minha alforria.

Mas de uma queda, fui ao chão. Como numa música que ouvi uma criança cantar pra mim, certo dia. E foi aí que feri minha asa, a direita. Fui a passos pequenos, demorei, acho eu, um dia inteiro para fugir do quintal daquela casa. Foi quando descobri que não era uma casa qualquer: ela ficava no alto de um morro. Não sei se era um simples morro, pois havia muitas casas ao redor. Foi assim que consegui planar até esta árvore, sem ninho, sem parentes, somente essas corujas tagarelas, que passam a noite toda virando o pescoço para ver se eu não caio daqui de cima. Tenho medo de cair. Não pela queda, mas por elas tentarem me ajudar (ou não, realmente não sei se elas são de boa fé) pegando-me com as garras e apertando, para que não caia, e acabem me matando, como fazem com os camundongos. Sabe que a carne deles não é tão ruim assim! Até prefiro bicar seus ossinhos com restos de carnes, do que ficar com as tripas molengas. Eca! Peguei nojo de minhocas. Acho que serei vegetariano, mas do jeito que estou indo, acho que sou o único periquito carnívoro. Já pensou: periquito matador de ratos! Isso daria uma boa matéria de jornal, ou não. Talvez um dia alguém conte essa história para alguém, hoje não, por que somente você saberá. Só você. E se eu cair um dia daqui, quero que me levem para ser enterrado lá em cima daquele morro, que foi lá o meu primeiro lar, lá estão minhas raízes, e a minha verdadeira família, que me acolheu logo após o nascimento, mesmo deixando-me trancafiado, alimentavam-me, limpavam-me, e amavam-me, inclusive a menina, aquela loirinha, que cantava todos os dias para mim, de uma forma tão doce, que algumas vezes chorei. E piava como louco, para que ela soubesse que estava entendendo o que cantava, ao contrário do que achava a mãe dela, uma senhora grande, muito grande, era redonda, parecida com o morro, acho que por isso que morava ali. Ela dizia que eu não entendia nada do que ela falava, mas a menina conversava comigo, ela dizia que me amava e que cantaria todos os dias ao anoitecer para eu dormir. E eu fechava os olhos e viajava naquela melodia, com aquela vozinha tão doce que eu poderia ter um ataque do coração ali mesmo que não me importaria, morreria feliz.

Pode dizer que peço perdão por ter fugido daquela família. Que a menina com toda certeza (sem querer me achar o tal) sentiu muito a minha falta. Ou talvez a mãe grande dela comprasse algum outro periquito. Mas até ele poder aprender a escutar e a entender o que aquela tão linda menina dizia e cantava, ele terá que conviver com a prisão, e a solidão do amor das pessoas."

O periquito não suportou e caiu da árvore. No chão, com o bico cheio de lascas, morreu. Ao seu redor, várias corujas, que viraram a cabeça e levantaram vôo logo em seguida, devido à menina que se aproximou, com cabelos castanho-claros, pulando, como se participasse de alguma brincadeira, sozinha. Ao vê-lo, recolheu-o e o levou para sua casa em cima do morro. Não percebeu que na árvore havia palavras miudinhas. Uma história de vida. Talvez alguém leia,quando for marcar o seu nome com o de outra pessoa, num torto coração.