Menino-peixe.
Flutuando sobre o mar,desfaço-me em gotas de sal.
Enquanto penso numa maneira de não me afogar,engulo mais água.
E isso me deprime.E me afunda.E me cega.
Quando abro os olhos,salgados,ardidos - a dor mostra-se como anestesia -,eu grito.
Ninguém ouve.Nem mesmo vê.E eu, ali, à deriva, numa imensidão constante, que não se acaba, só aumenta aos nossos olhos,mas não se reproduz,não, isso é ilusão.Eu me iludo. Nada é tão gradioso quanto o que lhe parece.
Mas mesmo assim eu fico a pensar, e esqueço um pouco da água que entra à jorra na minha garganta.
Acho que sou um pouco daqui, do fundo do mar.Sinto que algumas guélrras abrem-se no meu pescoço, e aquela salmora não desliza pela garganta,indo para o pulmão e parando,uma parte somente, no estômago, fazendo-o revirar .
Sinto que meus pés estão movendo-se com rapidez...e minhas mãos!Meus dedos juntam-se numa membrana estranha, esquisita.Não conseguirei mais equilibrar a moeda neles, que passava deslizando por entre eles,como mágica.Agora eu sou daqui, isso eu tenho certeza.Não me assusto mais com a escuridão do fundo do mar.Olho de relance para o abismo,solto uma baforada,que na atmosfera aqüífera nascem bolhas somente.Então,olho para trás, para saber se ninguém observa-me,talvez alguma anêmona esconda um peixe-palhaço, para tirar sarro da minha ignorância.Pulo, num salto ornamentalmente horroroso para um morador do mar.Sinto vergonha.Mas logo passa. Após chegar naquela imensidão,escura,sinto-me em casa,finalmente.

3 Comments:
Obrigado pela visita!
Cara, gostei pra caramba do seu blog! vou linkar no meu blz?
Quanto a esse texto, achei-o sufocante e ao mesmo tempo contemplatório! Parabéns, belissimo!
abraço
Fiquei aflita lendo, mas achei tão... sei lá, tão poético.
Adorável. =)
Na hora em que li me ocorreu o clipe do Sigur-Rós, Saeglopur. Veja.
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