Venho por meio desta informar que não postarei mais neste blog.Colocarei fotos,somente.
Meu blog de escritos será o www.esmolaliteraria.blogspot.com
Abraço
Venho por meio desta informar que não postarei mais neste blog.Colocarei fotos,somente.

Esse é o nome do conto que dá nome ao meu primeiro livro.A novidade é que ele foi publicado pela Camara Brasileira de Jovens Escritores(RJ) que pode ser visto através do site www.camarabrasileira.com.Ele faz parte da 9ª Coletânea de Contos Fantásticos.Esse já é o 3° conto publicado por eles,espero ter alcançado mais pessoas que alcanço pelo blog, que é minha casa também.
Flutuando sobre o mar,desfaço-me em gotas de sal.

"Ao pisar no galho, quase caí. Já era noite. Ouvia-se somente o chirrear das corujas. Não havia nenhum ninho para mim. Quis tanto um lugar somente meu, e quando pensei ter encontrado, era de todos, que vinham e tomavam-no como sendo deles. Eu nunca tive algo somente meu. Nem mesmo a minha mãe era minha. Ela era na verdade fêmea do meu pai. E eu? Sei lá.
Eu só queria poder fazer o meu canto. O meu próprio ninho, com meus próprios gravetos, alguns pedacinhos de algodões que achasse pela mata, ou até mesmo algum pacote de pipoca jogado pela rua.
Mas como poderia fazer isso? Enfermo, sem poder sair da árvore, dependia da ajuda das corujas, mas a comida seria o resto dos ratos que elas comiam. Suas tripas eram como minhocas, talvez mais apetitosas. Não podendo voar, contentava-me com o que ganhava. Como poderia viver sozinho, sendo um aleijado?Não, não era. Eu sei disse, só estou reclamando, pois tenho que desabafar. Eu sou somente um periquito, que chamam de australiano, não sei por quê.
Eu vivi, depois de ter nascido, numa gaiola toda enfeitada. Achavam-me passarinha. Ninguém entende a natureza mesmo. Mas fugi, tendo que passar pelas frestas debaixo da gaiola, que tinha um piso de papelão, que molhei muito, sem que ninguém percebesse, claro, pois sempre que colocavam comida ou limpavam a gaiola, eu tentava fugir, tirando a atenção de quem fosse limpar o papelão, concentrando-se somente em mim, e na comida. Às vezes ficava semanas sujo. Foi numa dessas semanas que consegui a minha alforria.
Mas de uma queda, fui ao chão. Como numa música que ouvi uma criança cantar pra mim, certo dia. E foi aí que feri minha asa, a direita. Fui a passos pequenos, demorei, acho eu, um dia inteiro para fugir do quintal daquela casa. Foi quando descobri que não era uma casa qualquer: ela ficava no alto de um morro. Não sei se era um simples morro, pois havia muitas casas ao redor. Foi assim que consegui planar até esta árvore, sem ninho, sem parentes, somente essas corujas tagarelas, que passam a noite toda virando o pescoço para ver se eu não caio daqui de cima. Tenho medo de cair. Não pela queda, mas por elas tentarem me ajudar (ou não, realmente não sei se elas são de boa fé) pegando-me com as garras e apertando, para que não caia, e acabem me matando, como fazem com os camundongos. Sabe que a carne deles não é tão ruim assim! Até prefiro bicar seus ossinhos com restos de carnes, do que ficar com as tripas molengas. Eca! Peguei nojo de minhocas. Acho que serei vegetariano, mas do jeito que estou indo, acho que sou o único periquito carnívoro. Já pensou: periquito matador de ratos! Isso daria uma boa matéria de jornal, ou não. Talvez um dia alguém conte essa história para alguém, hoje não, por que somente você saberá. Só você. E se eu cair um dia daqui, quero que me levem para ser enterrado lá em cima daquele morro, que foi lá o meu primeiro lar, lá estão minhas raízes, e a minha verdadeira família, que me acolheu logo após o nascimento, mesmo deixando-me trancafiado, alimentavam-me, limpavam-me, e amavam-me, inclusive a menina, aquela loirinha, que cantava todos os dias para mim, de uma forma tão doce, que algumas vezes chorei. E piava como louco, para que ela soubesse que estava entendendo o que cantava, ao contrário do que achava a mãe dela, uma senhora grande, muito grande, era redonda, parecida com o morro, acho que por isso que morava ali. Ela dizia que eu não entendia nada do que ela falava, mas a menina conversava comigo, ela dizia que me amava e que cantaria todos os dias ao anoitecer para eu dormir. E eu fechava os olhos e viajava naquela melodia, com aquela vozinha tão doce que eu poderia ter um ataque do coração ali mesmo que não me importaria, morreria feliz.
Pode dizer que peço perdão por ter fugido daquela família. Que a menina com toda certeza (sem querer me achar o tal) sentiu muito a minha falta. Ou talvez a mãe grande dela comprasse algum outro periquito. Mas até ele poder aprender a escutar e a entender o que aquela tão linda menina dizia e cantava, ele terá que conviver com a prisão, e a solidão do amor das pessoas."
O periquito não suportou e caiu da árvore. No chão, com o bico cheio de lascas, morreu. Ao seu redor, várias corujas, que viraram a cabeça e levantaram vôo logo em seguida, devido à menina que se aproximou, com cabelos castanho-claros, pulando, como se participasse de alguma brincadeira, sozinha. Ao vê-lo, recolheu-o e o levou para sua casa em cima do morro. Não percebeu que na árvore havia palavras miudinhas. Uma história de vida. Talvez alguém leia,quando for marcar o seu nome com o de outra pessoa, num torto coração.
Um bom emprego?Um bom amigo?Um bom amante?Ou algo para reclamar?
Sabe,eu até tentei ficar calmo,tranquilo,sem raiva de ninguém. Tentei mesmo! Mas perguntavam as coisas e eu respondia,calmamente. Eu perguntava as coisas e nem ouvia resposta alguma.Algumas vezes um cala a boca,outras uma cara que já dizia mil 'vai-à-merda'. Então eu fiquei calmo. Canalizava coisas boas, que se eu retrucasse seria pior para mim, que na vida existem coisas piores do que falta de educação. O que vinha na minha cabeça era coisas do tipo: você é um bosta, vai se foder, desgraçado da porra. Mas eu respirava fundo e continuava o que estava fazendo, calmamente. Assim, segui até o final do dia. No dia seguinte, fiquei tão feliz em levantar mais uma vez atrasado para o serviço que nem tomei banho. Esperar no ponto de ônibus alguns 5 minutos são torturantes,mas eu respirei fundo e vi que o ônibus já estava a duas quadras dali. Já dentro, antes de passar pela cobrador, sento sozinho num banco de dois lugares. É tão bom ficar sozinho em certos momentos.Respirei fundo e fiquei olhando os nomes dos carros que passavam, mas logo estava eu respirando fundo e fechando os olhos novamente.